sábado, 21 de novembro de 2009

Dancing in the dark.

Eu não conhecia essa cidade estranha, como até hoje ainda não conheço. Assim que fiquei solteiro, fui dividir um ap (uma kit na verdade), na rua Frei Caneca.
Me lembro que quando ainda morava no interior, e morar em SP era um sonho um pouco distante, vim com uma excursão da faculdade assistir a peça o Pequeno Príncipe, com a cara lavada e deslavada da Luana Piovanni e pensei : “Que rua legal, queria morar aqui”. E morei mesmo.
Foi a considerada época do “perrengue-chique-falso burguês-retrô”, naquela rua manisfestada pelos tipos Glbetanos de todas as idiossincrasias possíveis, de Drag queens falidas a bichinhas poc-poc, com tênis nike de 17 molas, ultra coloridos e translusentes. Pagando um aluguel absurdo e condomínio integrado por serviços de elevadores de madeira antigas e mal cheirosas a porteiros mal-educados e homofóbicos.
E do portão pra fora, na ultima quadra da rua, esbarrávamos no esnobe com a bolsa de grife e centavos contados para o táxi, a voz anasalada e irritante denunciando o arco íris, puro status, e com o esforço patético em esconder as condições reais de “to fudido e mal tenho o dinheiro pra uma pinga no bar da esquina”. Era mais ou menos assim...
A kitinete que era povoada pelos tipinhos ridiculamente superficiais e desenhadamente desanimadores, mantinha um rotina de festinhas estranhas e desordem habitual.
E foi morando na mesma rua, que conheci a Loca. Uma famosinha casa noturna underground. A loca é meio 8 ou 80, tem gente que ama, tem gente que odeia. Muita gente fala que lá tem encosto, eu sempre sai de lá carregadíssimo, mas sempre voltava, quase batia cartão aos domingos e ia trabalhar na segunda-feira com o humor dos diabos.
Estava mal acostumado com o som popular eletrônico das remixagens que você encontra em qualquer radiozinho pop, os “pôperos da vida”, que quando toca todo mundo gosta. E se você não gosta, todo mundo te olha e te acha idiota (me lembro que todo mundo me olhava e me achava idiota)...
Então, adentrando naquela caverna literalmente underground, logo na entrada uma cadeira elétrica desativada, sarcófagos, a rainha de copas sorridente, paredes quebradas dando passagem pro lounge escuro. Tudo muito escuro... E uma escada insegura que te leva pro andar de cima, onde se encontra o quarto ainda mais escuro.
O banheiro unissex com um espelho central, aposento das tiazinhas tricoteiras insuportáveis, que já briguei algumas vezes. Briguei = passado, não brigo mais, logo não freqüento mais.
A pista de dança, ou de viagem individual e/ou coletivo pequena e escura, com um palquinho pra hostess vesga e hostil comporta o som.
E o som é O SOM!

To be continued...

Falando desse lounge, me veio uma lembrança.
Num domingo, (porque somente é valido aos domingos, GRIND), há muito tempo atrás, sob efeitos de doses de tequilas-ouro (onde conheci os efeitos Tequilas-encosto instantâneos na balada, que te faz brigar, gritar e ficar com quem se arrepende depois), estava eu passando, e vi sentado comportadamente uma pessoa loira e com o rosto conhecido, pensei: “eu conheço aquela pessoa”. Mas sabe quando você não se lembra, achei que fosse alguém do interior, alguém bem próximo. Só depois de um tempo, não sei se no outro dia eu descobri, era o Herchcovitch. E eu achando que era algum conhecido do interior... Mas enfim!

E o som.

Foi a primeira vez que escutei Special K (Placebo), sabe quando você é transportado pra uma outra dimensão, inexplicável, e escuta os sons que você sempre quis escutar, mas nunca apresentado-lhes foram. Quando tem uma identificação grupal e você achando que era o único que gostava daquilo... Quando tocava Take on me (A-ha), Depeche mode e Earuse. L também conheci Mr Brightside (Killers), pelas mãos de quem sou fã, “the dj Pomba”.
As vezes me esquecia em qual década estava, tinha certeza que estava nos anos 80, a minha preferida. Achava que estava em um daquelas boates Studio 54. Era transcendental. As pessoas que faziam parte daquilo erm diferentes e faziam a minha cabeça. Achava todo mundo muito interessante, tão seguros, invejava a autoconfiança. Eram despojados e livres e aparentavam ter domínio de si e da situação.
Mas só aparentavam...
E eu voltei lá dia desses, tinha ido uma outra vez antes dessa, e não foi mais a mesma coisa.
Era a mesma Loca de sempre, as mesmas pessoas, o mesmo som e mesma atmosfera noturna, toxicológica e atraente. Mas não sei... Não fez mais a minha cabeça. Como se tivesse desembaçado meus óculos retro de armação preta, aquele ‘todo mundo interessante” não me era mais interessante, o que aparentemente tinham domínio de si e da situação, não passava de efemeridade, futilidade, carência, tanta falta do que dizer, fuga e infelicidade.
Pareciam que estavam todos perdidos buscando a luz na escuridão.
E eu nãi me vi mais fazendo parte daquilo. Na verdade , participava exporadicamente com um pé atras e dedos cruzados.
Naquele lugar pra mim é impossivel encontrar o Amor. Mas ouvir Smiths ou
the Cure me fez lembrar de um desses amores que a gente guarda na gaveta, como uma cueca branca e velha que a gente gosta de usar pra ficar quietinho, só com a gente, na busca da solidão de direito. Lá encontrei alguns, que passaram antes de saber ao certo se foram paixões ou invenções.
Me lembrei de Dancing in the dark, com a melhor Björk (sensacional, no sentido literário da palavra de causar sensação). Aconselho Björk e aconselho Loca tambem, com moderação. Use-a e não deixe ser usado, embora seja inevitável meu caro.



Um comentário:

Unknown disse...

Com vc conheci uma cidade que eu não conhecia. Isto pode parecer idiota. Vc pode me achar idiota. Tá...o ano passou, as coisas mudaram e eu não parei no tempo... Só escrevi isto, pq lendo isso, me lembrei daquilo...

Sem noção, sem sentido, mas tudo justificado.

Se cuida...sempre