sábado, 26 de janeiro de 2008
Saudades de um tempo que nao vivi..
Sinto saudade de um tempo que não vivi, engraçado, mas é mais real e provável do que se possa imaginar. Muita gente acha que nasceu na década errada, que nasceu no país errado, que nasceu na família errada... Meu sonho em uma certa fase de minha vida sempre foi morar em um destes países nórdicos, onde é sempre frio, com folhas secas de inverno, ou destes retratados em filmes americanos, que serviam de cenário para os filmes de Maucalain Culkin e para a minha série de tv americana preferida (na minha opinião, a melhor) Dawson’s Creek. Queria falar inglês como eles, usar calças jeans, luvas e gorro o tempo todo, fumar cigarro e ver a fumacinha se misturando com a neblina, brincar de correr entre as árvores de uma daquelas enormes florestas que sempre escondem um riacho, ou então um lago com um barco velho abandonado por alguém. Queria estudar naquelas escolas, embora nem me interessaria dessecar os sapos, e guardar as minhas coisas nos armários daqueles colégios. Detestaria a competição entre os líderes dos jogadores de futebol americano e o desprezível interesse das teenagers pelos melhores jogadores do time. Essa poderia ser a década de 90. Mas a minha preferida é a 80. Ao mesmo tempo em que gosto da calmaria dos lugares paisagísticos e cinematográficos que acabo de descrever, sinto-me profundamente seduzido pelo perigo e pela divertida década do ano em que nasci. A década de 80 rica pela música, por U2 e Cazuza, pelos melhores desenhos animados, alguns exibidos no programa da Xuxa que lançava moda com suas botas e seu figurino, inquestionavelmente trash, concorrendo com o Tom e Jerry, Pernalonga, o saudoso Pica-pau, cavalo de fogo e a princesa Sara, do Tio Silvio Santos que presenteou o Brasil com o genial Chaves, e insistia em empurrar novelas mexicanas goela abaixo do povo brasileiro. No final desta década me lembro de minha mãe reclamar do diabo da inflação, que sempre subia os preços e não permitia ninguém comprar nada. E não deixava mesmo. Pois nunca pude ter um atari, um ferrorama e nem um Supermassa, a alternativa foi me contentar com um pirocóptero e colecionar meus álbuns de figurinhas do chiclete ping-pong, que hoje considero minhas relíquias. Mas enfim, eu não fui adolescente nos anos 80. Não freqüentei as discos e nem acompanhei a moda daquela época. As lembranças daquele lugar fictício ainda continuam vivas na minha memória e um dia quem sabe, talvez eu as reencontre. E definitivamente, minha família não se parece nem um pouco com aquela família do comercial da margarina. Meu pai, diferente do que eu idealizava, nunca usou ternos e gravatas. Mas com suas imperfeições e descaradamente humanizadas, minha família que grita, que berra e que sempre briga, também ama, protege, se une e pede perdão. Talvez sempre tenha vivido num mundinho imaginário, paralelo da realidade, que pudesse me garantir segurança e felicidade. Mas com 22 anos, e cada dia mais aprendendo a viver, sempre descubro que a vida real pode ser mais fantástica, emocionante e principalmente humana do que qualquer outra fuga de vida surreal.
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